Amor Desigual
Ouvia aflita ao longe os gritos de dor.
Rapidamente desceu amedrontada a escada da palafita, entrou na canoa depressa e remou rio afora, pois sabia que seu destino seria o mesmo caso permanecesse no local.
Indígena da etnia Kaxarari conheceu e apaixonou-se por um branco, engravidou, coisa que não era aceita na cultura de seu povo.
Hoje quem conta o que aconteceu com sua avó, é a dona Elena.
Ela conta que a avó na fuga conseguiu chegar em Lábrea, município do estado do Amazonas, que foi acolhida, na comunidade local e batizou-se com o nome de Maria. Seu rebento nasceu, sexo feminino, deu-lhe o nome de Jandira. Maria nunca se esqueceu o que ocorreu com o seu companheiro, que ao fugir com o mesmo, e terem construído um local para viver, acharam que não seriam encontrados, menosprezando o fato de que os nossos ancestrais indígenas conhecem mais que ninguém a floresta Amazônica.
Dona Jandira filha de dona Elena conta que os homens da aldeia chegaram de mansinho, nas primeiras horas do dia, pegaram o parceiro de sua avó e o levaram para um lugar afastado e o mataram à flechadas. Voltaram para pegá-la, mas ela já havia fugido, olharam e a avistaram ao longe, desprovido de canoa, só restou aos mesmos lançar algumas flechas que não a alcançaram.
Maria com o tempo pode reconstituir sua vida, casou-se e teve outros filhos.
Elena, a filha de dona Maria e do branco, assassinado pelos indigenas, hoje com 97 anos, testemunha sua filha Jandira contar aos netos e bisnetos e quem desejar ouvir, essa história de amor entre seus pais, trágica, dolorida, porém mostrou a força que a mulher tem de suplantar situações difíceis que ficam gravadas na alma.
O fato é que dona Elena e dona Jandira sobreviveram e estão aí para contar a história!
Ilustração criada por IA